A Quantum Systems, empresa de drones fundada em Munique, fechou em julho uma ronda de financiamento Série D de 1,2 mil milhões de dólares. O negócio elevou a sua avaliação para cerca de 8 mil milhões de dólares (https://techstartups.com/2026/07/02/german-drone-startup-quantum-systems-raises-1-2b-at-8b-valuation-as-investors-pour-billions-into-ai-defense/). A ronda foi co-liderada pela Blackstone, Noteus, Airbus e Advent, com participação da Bond, Fidelity Management & Research Company, Balderton e HV Capital. Menos de nove meses antes, a empresa tinha angariado 180 milhões de dólares a uma avaliação de 3,5 mil milhões, o que significa que mais do que duplicou o valor num único ano.
O montante insere-se num movimento de capital mais amplo. Investidores colocaram este ano 17,4 mil milhões de dólares em startups de tecnologia de defesa na Europa, segundo dados da Dealroom citados pela CNBC, ultrapassando já os 11,2 mil milhões investidos em todo o ano de 2025 (https://techstartups.com/2026/07/02/german-drone-startup-quantum-systems-raises-1-2b-at-8b-valuation-as-investors-pour-billions-into-ai-defense/). Segundo o próprio de Vries, mantém uma posição de investidor anjo numa startup alemã de sistemas autónomos que segue uma lógica semelhante à que transformou a Quantum Systems numa das empresas mais valiosas do sector.
Da cartografia agrícola aos campos de batalha
A empresa nasceu em 2015 pelas mãos dos engenheiros aeroespaciais Florian Seibel, Armin Busse e Tobias Kloss, com apoio de Peter Thiel. Os primeiros drones serviam aplicações comerciais, como o mapeamento de terrenos agrícolas e a inspecção de infra-estruturas. A invasão russa da Ucrânia em 2022 alterou essa trajectória: a procura por aeronaves capazes de apoiar operações militares sem abandonar as capacidades comerciais disparou, e a Quantum Systems aprofundou a sua presença no mercado de defesa.
Essa transição resultou em lucro, um marco raro entre startups apoiadas por capital de risco que angariam rondas de mil milhões de dólares. “O futuro é não tripulado. A defesa será definida por sistemas autónomos capazes de operar em conjunto, em tempo real, através de diferentes domínios”, afirmou Florian Seibel, co-fundador e co-CEO da empresa, citado num comunicado da própria Quantum Systems (https://quantum-systems.com/us/news/quantum-systems-raises-1-2bn-series-d-to-accelerate-growth-and-scale-software-defined-autonomous-systems-across-air-land-and-sea/). A empresa já concluiu mais de 19 mil missões na Ucrânia apenas durante 2025 e expandiu a produção para a Alemanha, Ucrânia, Estados Unidos, Austrália, Roménia, Reino Unido e países bálticos.
David Kaden, director sénior na Blackstone, resumiu o argumento dos investidores: “Uma mudança estrutural no mercado europeu de defesa criou uma procura significativa de capital para apoiar o desenvolvimento do sector e a adopção de tecnologias avançadas” (https://quantum-systems.com/us/news/quantum-systems-raises-1-2bn-series-d-to-accelerate-growth-and-scale-software-defined-autonomous-systems-across-air-land-and-sea/).
Um padrão que se repete por toda a Europa
A Quantum Systems não está sozinha nesta corrida. A Helsing, também alemã, procura fechar uma ronda de 1,2 mil milhões de dólares a uma avaliação de 18 mil milhões (https://dronehub.ai/blog/top-european-drone-companies). A Stark angariou 500 milhões de euros o mês passado, numa ronda liderada pela Sequoia Capital e pelo Founders Fund de Peter Thiel. A portuguesa Tekever, com os seus drones de vigilância AR3 e AR5 usados no Mar Negro e na Ucrânia, está avaliada em cerca de 1,3 mil milhões de dólares. Nos Estados Unidos, a Anduril angariou 5 mil milhões de dólares em maio, enquanto a Saronic Technologies e a Shield AI fecharam rondas de 1,8 e 2 mil milhões, respectivamente.
O denominador comum entre a maioria destas empresas é a origem comercial. A Quantum Systems começou na agricultura e nas infra-estruturas. A Tekever nasceu de projectos de vigilância marítima civil. Só depois vieram os contratos de defesa, os exércitos aliados e as avaliações de mil milhões.
A lógica por trás da posição de de Vries
De Vries diz identificar este tipo de oportunidade cedo, através da sua rede de contactos e de anos a acompanhar sectores emergentes antes de estes se tornarem visíveis para o mercado mais amplo. O critério que aplica é o mesmo que descreve para startups de qualquer área: “Se tiver perseverança e vontade de crescer, e perceber qual é o próximo passo para eliminar o obstáculo, tem a energia certa para lá chegar”, disse, ao explicar como reconhece uma lacuna de mercado antes de esta se tornar óbvia.
A sua posição de investidor anjo numa startup alemã de sistemas autónomos segue a mesma tese que sustenta o percurso da Quantum Systems: tecnologia com aplicação comercial imediata, capaz de crescer para a procura de defesa e industrial sem perder a base de clientes original. De Vries já explicou por que evita empresas que correm atrás de avaliações antes de terem construído algo sólido. “Não se constrói um foguetão num só dia. Muita gente salta etapas porque quer chegar à próxima ronda de financiamento, quer o dinheiro, quer a avaliação. Mas se não colocar o trabalho todo, não vai conseguir essa avaliação”, afirmou, ao descrever o erro mais comum que observa em startups que não atingem o seu potencial.
Essa cautela ajuda a explicar por que de Vries diz ter visto valor no sector dos sistemas autónomos antes de este atrair a atenção da Blackstone ou da Airbus. Investimentos em rondas pré-seed costumam exigir entre dez e doze anos até gerarem retorno. É um horizonte que afasta capital oportunista e recompensa quem entra cedo com paciência para a maturação do negócio. O dinheiro institucional chega agora aos milhares de milhões. A aposta original de de Vries foi feita numa fase em que o sector ainda não tinha o peso que hoje domina as manchetes financeiras europeias.

