Star Wars: O Despertar da Força – Análise Embevecida e Não Totalmente Imparcial e Isenta, Mas Que Se Lixe.

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Nota: Este texto está livre de spoilers daqueles mais puxados. Não garanto que não saia uma ou coisa outra sem gravidade – nomeadamente sobre características genéricas do vilão mantido até agora em maior segredo, o Supremo Líder Snoke, ou sobre a complexidade psicológica de Kylo Ren. Mas, como digo, não há nenhuma revelação bombástica (apesar de acontecerem coisas notáveis no filme).

O Despertar da Força inicia uma nova trilogia Star Wars, mas, na verdade, termina outra trilogia. Aquela que começou com Guardiões da Galáxia, seguiu caminho com Mad Max: Estrada de Fúria e que fecha agora com o sétimo capítulo da mais lendária saga espacial da História. Três filmes recentes que reavivam a esperança nesse formato tão digno e tão maltratado que é o blockbuster. Sim, os blockbusters são sempre, por definição, máquinas de fazer dinheiro – mas quando Steven Spielberg os inaugurou em 1975 com Tubarão, estabeleceu que as máquinas de fazer dinheiro podem não ser desprovidas de inteligência e alma, coisa que “artistas” como Michael Bay e afins se encarregaram, entretanto, de contradizer.

É difícil escrever uma crítica a um filme Star Wars quando se é fã. Essa foi uma das razões porque deixei de escrever crítica de cinema profissional – eu não era objectivo e isento o suficiente. Os filmes falam-me de maneira demasiado visceral para que eu tenha a credibilidade requerida para escrever de forma séria sobre os méritos ou defeitos de uma obra. Há filmes inegavelmente bons que me deixam frio e amo de paixão algumas fitas xunga.

Para mim, Star Wars nem é bem cinema: é uma coisa à parte, um pedaço afectivo da minha vida, do meu crescimento, o que faz com que o meu olhar sobre esta saga esteja, à partida, viciado. Quando o Episódio I – A Ameaça Fantasma estreou, em 1999, eu fiquei tão entusiasmado pela mera ideia de haver um novo filme da saga nas salas de cinema, que isso toldou o meu juízo inicial sobre o filme. Lembro-me de ter saído do cinema com um sorriso no rosto, mesmo que, lá no fundo, algo me dissesse “há aqui qualquer coisa que não está bem”. Ainda assim, escrevi com entusiasmo sobre ele para a revista Premiere – sendo que, rapidamente, dei por mim a reflectir sobre a insana quantidade de defeitos que esse filme tem. George Lucas envelheceu com a sua trilogia e, apesar dos episódios II e III serem melhores, o que se passa nas prequelas é que são a visão que um senhor “de uma certa idade” tem da obra que ele inventou enquanto jovem de sangue na guelra. E Star Wars precisa de manter o sangue na guelra.

E ele está, de várias maneiras, n’ O Despertar da Força. Depois da desnecessária complicação das prequelas – complicação que ia desde a história das rotas de comércio até à sobrecarga de efeitos visuais digitais, que acabam por criar frieza e distância – o Episódio VII é tão jovial e tão simples, sem com isso sacrificar a inteligência, que nos lembra porque é que isto nos conquistou da primeira vez. Vê-lo é recuperar por inteiro o espírito infantil (mas não infantilóide) de aventura que nos apaixonou nos anos 70 e 80 pela saga e que certamente irá apaixonar os miúdos de hoje. Sim, tem tudo para os cativar, mesmo com todos os estímulos com que são bombardeados por estes dias e que os fazem, naturalmente, ter uma visão mais superficial das coisas que, no nosso tempo (cof cof) acabavam por ser mais especiais e únicas.

Temos então um set-up muito simples: depois da queda do Império, uma nova organização do Mal – a Primeira Ordem – surgiu e anseia derrubar a República e fazer um upgrade da vilania imperial. Ela é representada por uma criatura obscura que surge sob a forma de projecções gigantes – o Supremo Líder Snoke (Andy Serkis) – entidade que tem no General Hux (Domnhall Gleeson) e no misterioso “enforcer” de máscara de ferro, Kylo Ren (Adam Driver), os seus homens de mão, capazes de pôr em prática o seu simples mas sinistro plano de tomada de poder. É um novo Palpatine que rapidamente percebemos que talvez faça Palpatine parecer um menino do coro.

O lado da luz é representado por um bando de aventureiros que inclui Finn (John Boyega), um Stormtrooper arrependido; Rey (Daisy Ridley), uma sucateira que pode ter talentos escondidos; Poe Dameron (Oscar Isaac), o melhor piloto da galáxia; BB-8 (que, soube-se agora, tem voz do comediante Bill Hader, filtrada por uma jeitosa quantidade de efeitos), um pequeno e adorável robot contendo um segredo; e pelos veteranos Han Solo (Harrison Ford), Chewbacca (Peter Mayhew) e Leia (Carrie Fisher), outrora princesa e agora general, bem como os robots C3PO (com um braço vermelho), interpretado por Anthony Daniels, e R2D2, albergando Kenny Baker no seu cilíndrico e icónico corpo. A missão deles é também simples – encontrar Luke Skywalker (Mark Hamill), o D. Sebastião da nova Resistência.

E é com estes dois planos do Mal e do Bem que O Despertar da Força se faz. E se depois desta lista parecer que isto são personagens a mais… Bem, talvez sejam – e algumas ficarão com menos para fazer (como é o caso do piloto interpretado pelo excelente Oscar Isaac, Poe, que certamente verá o seu protagonismo aumentado em próximos volumes, bem como a Capitã Phasma de Gwendoline Christie). Mas ainda assim, o argumento, um “labour of love” criado entre uma velha raposa (Lawrence Kasdan, que entrou na escrita da saga no tempo de O Império Contra-Ataca, para além de ser o brilhante autor de Os Amigos de Alex e Grand Canyon) e dois fãs da geração seguinte (para além de JJ Abrams também o argumentista de Little Miss Sunshine, Michael Arndt) é uma lição de equilíbrio e estrutura, e dá que fazer a todas as personagens. O que a trilogia original tinha que as prequelas perderam era o equilíbrio perfeito entre mitologia épica e gozo despretensioso, coisa que O Despertar da Força recupera em pleno, arriscando que haja críticas – como já houve – que o acusam de seguir demasiado à risca a fórmula de 1977-1983. Nada contra: mesmo que haja um lado quase de remix do original, há também uma frescura em John Boyega e Daisy Ridley que, aliada à energia e à alegria com que JJ Abrams dirige a empreitada, tornam O Despertar da Força numa coisa realmente especial. E isso estende-se ao Lado Negro: ir buscar um excelente jovem actor ao cinema indepdendente como Adam Driver faz do vilão Kylo Ren uma figura extraordinária de maldade e vulnerabilidade, sempre numa fina linha entre a ameaça sobrenatural e o patético mais humano. Não é um novo Darth Vader; é uma personagem arriscada por ser muito menos “maior-que-a-vida” do que aparenta (e numa saga destas, os vilões querem-se “maiores-que-a-vida”), mas, em última análise, isso torna-o mais palpável e mais perigoso.

Em suma: uma barriga cheia. E o Episódio VIII tem tudo para, tal como O Império Contra-Ataca em relação a Uma Nova Esperança, ser ainda melhor. O Despertar da Força, sendo um grande e viciante espectáculo repleto de vitalidade e imaginação, é também um filme de desmame, colado ao espírito clássico para ajustar contas com as saudades que as prequelas não curaram e com o claro intuito de levantar voo em direcções surpreendentes em próximos tomos. Mas, tudo indica, sem nunca perder de vista aquilo que fez da trilogia original um espectáculo tão válido em 2015 como era em 77-83: uma ideia de cinema que acredita ser possível contar boas histórias com boas personagens e transformá-las numa montanha russa. O cinema é muita coisa, mas, por muito que se diga que não, é também muito isto.

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